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O inventor do futuro
Jornal do Brasil Online
Teresa Karabtchevsky
24 Junho 1997
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Jornal do Brasil Online, 24 Junho 1997
O inventor do futuro
Jean Paul Jacob, gerente de
pesquisas da IBM, explica como a
tecnologia vai mudar a sua vida
TERESA KARABTCHEVSKY
Cabeça de Einstein, corpo de Pavarotti, lábia de Jô Soares.
Assim é Jean Paul Jacob, o sorridente gerente de pesquisas da
IBM, que passa a vida criando cenários futuristas e deixa
qualquer alérgico a computadores convencido de que, em muito
pouco tempo, essas máquinas serão mais amigáveis do que aquele
velho companheiro de infância.
Paulista, apesar do nome francês, este apreciador de
caipirinha "de cachaça" estudou Engenharia Eletrônica
no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em 1960. De lá
para cá, acumulou alguns PHDs.
Inventar o futuro faz parte do seu trabalho, mas é também
sua maior diversão. "Não tenho hobbies, meu prazer está
em fazer previsões. Vou assistir Jurassic Park e saio
imaginando como eles fizeram aquilo, que equipamentos e programas
foram usados", diz.
Em uma de suas primeiras adivinhações, decretou: "vou
passar a vida viajando." Aterrisou na França, onde morou um
ano. Depois passou pela Holanda e pela Suécia até despejar sua
boemia na Califórnia, onde vive há 32 anos, comodamente
instalado num apartamento em frente à Baía de São Francisco.
Mais calmo, ele costuma se deliciar com camarões flambé
aux cognaq, seu prato preferido, enquanto vislumbra um mundo
em que cartões de apresentação serão trocados num simples
aperto de mão. Isso será possível graças a um chip embutido
na sola do sapato de executivos e donas de casa. "Eles vão
passar o dia pisando nessas informações, que depois serão
transferidas para o computador", prevê. Como isso será
possível? "Nós vamos ter uma aura digital. Vamos botar um
disco rígido e um microprocessador na sola dos calçados. Falta
a bateria? Não, o ser humano é um excelente condutor de
eletricidade", vibra.
Pelo mesmo princípio, as donas de casa não precisarão mais
recorrer às listas de compras. Um chip, acoplado à despensa,
informará os mantimentos em falta e os dados serão registrados
no sapato da madame. Ao passar diante das prateleiras do mercado,
painéis luminosos avisarão que o produto deve ser comprado. Ah,
aquela história de esvaziar o carrinho no caixa também vai
acabar. As compras serão registradas automaticamente ao passarem
por uma porta.
Nas visões criadas por Jean Paul, os automóveis terão transponders
grudados no pára-choque que darão informações sobre as
condições das estradas ao motorista. Seu entusiasmo pelos
avanços tecnológicos traça um cenário ainda mais divertido:
"teremos telas de cristal líquido emolduradas e poderemos
escolher quadros de impressionistas para decorar a casa num
jantar. Se o convidado preferir telas de Di Cavalcanti é só
apertar um botão e trocar pela obra do brasileiro",
ilustra.
Usando imagens de um planeta deliciosamente futurista, Jean
Paul extrapola como ninguém algumas tecnologias que já existem.
Um modelo experimental da japonesa Mitsubishi identifica,
através de censores, desvios no comportamento do motorista. Na
Suécia, alguns modelos da Volvo saem de fábrica com transponders
no bocal do tanque de gasolina, para que os frentistas-robôs dos
postos possam identificá-los evitando que o cliente precise sair
do carro naquele frio de rachar.
Parte do show deste sessentão está em falar sobre o que não
conseguiu antever. Seu exemplo mais comum é a explosão do
telefone celular, dos notebooks, dos CDs e da Web, todos frutos
da necessidade do ser humano em se comunicar. Ele também comenta
alguns erros de percurso da indústria de informática. O
videofone é um deles. "Não pegou." Outro que não deu
muito ibope até agora foi o reconhecimento de voz.
"Computadores com comando de voz só serão necessários
para profissionais que usam as mãos, como os radiologistas, e
deficientes físicos. Ficaria muito estranho eu dar ordens para o
meu notebook no meio de um ônibus", justifica.
"Também é difícil o reconhecimento do discurso",
pondera.
Mas o mesmo time que toma alguns frangos, vez por outra faz
golaços. Dois dos 2.500 pesquisadores que trabalham com Jean
Paul no centro de pesquisas da IBM, em Almadén, na Califórnia,
conseguiram teletransportar elétrons. A experiência não é,
como muitos pensam, o primeiro passo para o teletransporte
humano, mas trará progressos à medicina.
Entre uma experiência que dá certo e outra que fracassa,
Jean Paul trabalha "todas as horas do dia". Apesar da carga
horária, ele tem uma rotina de causar inveja a qualquer
garotão: não precisa dar as caras no prédio da empresa
diariamente e, melhor de tudo, é pago para pensar. Suas idéias
mirabolantes podem chegar enquanto está degustando uma porção
de ovos nevados ao som de Chopin, que muito lhe agrada, navegando
na Internet ou pensando na existência de Deus, em quem acredita
"não na forma material, mas como princípios morais".
 
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